Palhaço com Propósito: a arte do Doutor Palhaço ao serviço da criança hospitalizada - Fernando Escrich - Operação Nariz Vermelho

Palhaço com Propósito: a arte do Doutor Palhaço ao serviço da criança hospitalizada – Fernando Escrich

Começo este texto a falar deste pequeno planeta cheio de histórias, emoções, mistérios, memórias e regras, muitas regras: o Hospital. É um habitat bastante conhecido por nós, os artistas que fazemos a escolha – e aceitamos o desafio – de lá entrar vestidos de palhaços e palhaças que fingem ser médicos, doutores e enfermeiros, para encontrar crianças que fingem acreditar nesta brincadeira a sério.

Arquitetonicamente, o hospital é quase sempre um edifício grande, misterioso, com muitos andares, inúmeras janelas, infinitas entradas e saídas, e que, muitas vezes, serve apenas como um ponto de referência “assustador” para encontrar outros lugares numa cidade.

Há pessoas que nunca chegaram a entrar num hospital e outras que, só de pensar nisso, se enchem de medo, arrepios e insegurança. Já para outras (nós palhaços inclusive), trata-se da nossa casa, um lugar de rotinas, onde se estabelecem relações de trabalho, colaboração, amizade e cuidado. Eu próprio nunca imaginei, ao escolher ser artista, que um dia viria a trabalhar nestes corredores tão distantes e desconhecidos para tanta gente.

Entrar num hospital nunca foi uma tarefa fácil para ninguém, muito menos para uma criança. E é precisamente neste cenário que surge uma figura improvável, mas profundamente transformadora: o Doutor Palhaço. 

Um Doutor Palhaço ou Doutora Palhaça da Operação Nariz Vermelho, antes de tudo, é artista profissional, com técnica e formação específica. Para atravessar as portas de um hospital é necessário ter consciência de si, do seu ofício e da responsabilidade de ali estar, porque, no hospital, ele não veste apenas um figurino: veste uma missão. E, para isso, trabalha a partir de três movimentos essenciais: o olhar atento para ver, escuta ativa para ouvir e perceção sensível do ambiente para entrar em ação com ética, respeito e responsabilidade.

Cada criança reage de forma única a este encontro com o Doutor Palhaço. Há dias de muitas gargalhadas e dias do mais puro silêncio.

Mais do que entretenimento, o nosso trabalho tornou-se uma ferramenta de conexão humana e emocional. Tem linguagem própria, uma linha artística apurada, profunda reflexão e exige muito mais do que simplesmente fazer rir.

Exige preparação artística, treino, inteligência emocional, grande capacidade de adaptação e acima de tudo: Propósito!

Por detrás do nariz vermelho, existe um artista que escolheu colocar o seu talento e força criativa ao serviço do encontro entre a arte e a saúde, com o objetivo de levar alegria às crianças, às suas famílias e aos profissionais hospitalares. Com o compromisso de olhar para a criança para além da doença – não fugir da realidade, mas para a tornar mais humana.