Recomeçar — a mesma missão, uma nova perspetiva! – Sílvia Carvalho
Desde criança que me fascina esta ideia de que a realidade depende do lugar de onde a observamos. Aquilo que para mim é um 6, pode muito bem ser um 9 de pernas para o ar!
E a vida foi-me ensinando que, nas ciências humanas (e na vida em geral), isto é essencial para estabelecer uma boa comunicação: perceber as coisas de vários ângulos, colocar-me no lugar do outro e tentar perceber outras perspetivas.
Após 11 anos a Coordenar a Relação Hospitalar Norte da Operação Nariz Vermelho — que foi a minha grande paixão desde o primeiro dia —, chegou a hora de recomeçar, sob uma nova perspetiva: a Coordenação de Projetos. Um desafio novo para a organização e completamente novo para mim, que está agora a nascer e vamos construir em conjunto.
Ao longo de quase 30 anos de vida profissional, fui aprendendo a importância de escutar interna e externamente os sinais que nos dizem que está na hora de partir para uma nova aventura. O que nem sempre é fácil. Sair da zona onde nos sentimos seguros, onde sabemos que somos “bons”, para abraçar algo que desconhecemos e onde não sabemos exatamente como nos vamos sair… exige alguma coragem e dá um friozinho na barriga.
Nestes 11 anos a observar os Doutores Palhaços nos hospitais e nos momentos de treino, fui aprendendo uma coisa muito importante: há um momento certo para sair do quarto e é importante encontrar um bom final. Aquele instante em que a cena está no ponto alto, em que a criança, a família e a dupla de palhaços estão plenamente satisfeitos com o Encontro estabelecido. Saber reconhecer esse momento exige sensibilidade, honestidade e algum desapego.
E é curioso como isso também se aplica à nossa vida.
Tal como os palhaços precisam de perceber quando a sua missão naquele quarto está cumprida, também nós precisamos de reconhecer quando é tempo de “sair de cena”. Este último ano trouxe-me essa clareza: a minha missão na Relação Hospitalar estava completa. Era hora de seguir e deixar ir — com todo o cuidado, carinho, respeito e gratidão que estes 11 anos nesta função merecem.
Tenho pensado muito sobre a importância de dignificar os finais. De os aceitar e celebrar como parte natural da vida, com tanta beleza como os inícios. Como uma grande amiga me disse há muitos anos: “each end is a new beginning”. Tal como na natureza, tudo tem um princípio, meio e fim. E, no entanto, nada se perde — tudo se transforma, já dizia Lavoisier.
Sinto-me profundamente grata por tudo o que aprendi, sobre a vida e sobre mim, através da Arte do Palhaço, do contacto humano com tantas pessoas incríveis nos hospitais e também com a minha equipa extraordinária. Foi (e continua a ser) um enorme privilégio!
Agora sigo, de coração cheio, para esta nova perspetiva, e espero mesmo estar à altura do novo desafio que agora abraço, com o mesmo entusiamo, alegria e vontade de aprender dos últimos 11 anos.
Obrigada a todos os que me inspiram e tornam o caminho mais bonito! 💛