A Arte do Doutor Palhaço no Contexto da Formação dos Estudantes de Medicina – Iêda Alcântara
Entre 8 e 12 de setembro de 2025, realizámos, em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a primeira edição da unidade curricular optativa A Arte do Doutor Palhaço no Contexto da Formação dos Estudantes de Medicina. Foram cinco manhãs intensivas, num total de 20 horas de aula, com 19 estudantes do 3.º, 4.º e 5.º anos do curso. Pouco tempo, dir-se-ia. O suficiente, como se veio a perceber, para deslocar olhares, reconfigurar escutas e produzir aprendizagens que não cabem facilmente em métricas tradicionais.
Desde a sua génese, esta disciplina não se propôs “ensinar palhaçadas” a futuros médicos, nem importar soluções artísticas para a prática clínica. O que se propôs foi criar um espaço de treino e reflexão sobre competências humanas fundamentais — comunicação, empatia, presença — a partir da linguagem artística do Doutor Palhaço, tal como a levamos aos hospitais.
Um ponto de partida claro: A relação antes da técnica
A proposta parte de um diagnóstico amplamente reconhecido na literatura e na prática clínica: a crescente pressão do tempo, a centralidade dos exames complementares e a complexificação tecnológica têm vindo a fragilizar a relação médico-paciente. Não por falta de intenção, mas por erosão quotidiana. Assumimos, contudo, que a excelência técnica não é incompatível com a atenção à subjetividade; pelo contrário, depende dela.
O Doutor Palhaço surge aqui como artista da relação. Um profissional que trabalha sem guião fixo, que só existe na presença do outro, que se expõe ao erro e ao imprevisto, e que constrói cada encontro a partir de três movimentos estruturantes: olhar atento, escuta ativa e perceção do ambiente. Este tripé, central na intervenção artística em contexto hospitalar, foi também o eixo pedagógico da disciplina.
A opção por uma metodologia ativa foi deliberada. Em vez de aulas expositivas, os estudantes foram convidados a entrar em exercícios de improviso, jogos de atenção, simulações de comunicação clínica e rodas de reflexão diária. Para além do trabalho corporal e relacional desenvolvido nas dinâmicas, foi fundamental a presença da psicóloga do nosso Centro de Estudos e Pesquisa, responsável pela abertura e fecho de cada sessão, trazendo um tempo de preparação conceptual e de reflexão e sistematização das aprendizagens. Este dispositivo permitiu ancorar a experiência vivencial num quadro teórico, favorecendo a articulação entre o que era vivido nos exercícios, os processos subjetivos mobilizados e situações reais da prática médica. A aprendizagem construiu-se, assim, na tensão produtiva entre fazer, sentir e pensar — condição essencial para que o vivido não se esgote no momento, mas possa ser integrado e transformado em conhecimento duradouro.
A equipa docente — composta por um trio dos nossos artistas, um médico docente da FMUL e uma investigadora em psicologia — trabalhou em dupla, à semelhança do que acontece no hospital, sempre acompanhada por um artista-observador. Este dispositivo permitiu uma observação fina das dinâmicas do grupo, da postura individual e da forma como cada estudante se relacionava com o erro, o silêncio, o outro e consigo próprio.
O impacto de um contacto breve
Um dos riscos frequentemente apontados a formações desta natureza é a sua curta duração. Cinco dias parecem pouco para “mudar” alguma coisa. No entanto, os dados recolhidos (reflexões diárias, relatos escritos e exercícios finais) mostram outro tipo de impacto: não a aquisição de respostas, mas a abertura a novas perguntas.
Nas histórias (reais e ficcionais) escritas pelos estudantes, surgiram de forma recorrente temas como a dificuldade em comunicar más notícias, o confronto com a morte de crianças e adolescentes, a impotência diante de decisões éticas complexas e o colapso momentâneo da fronteira entre o profissional e o pessoal. O que se destaca não é apenas a intensidade emocional desses relatos, mas a consciência crescente de que estar presente, mesmo quando não há solução, é parte constitutiva do cuidar (o que traz questões também sobre a visão clássica, binária, dessa fronteira imaginária da pessoa versus o profissional).
Vários estudantes referem, explicitamente, a perceção de que interrompem demasiado cedo, que escutam para responder e não para compreender, ou que confundem eficiência com rapidez. Outros identificam, talvez pela primeira vez, o peso do corpo, do tom de voz, do silêncio e do ambiente físico na qualidade da comunicação clínica. Estes são ganhos subtis, difíceis de quantificar, mas decisivos na construção de uma prática médica mais consciente.
O que fica quando a disciplina acaba
A Arte do Doutor Palhaço, tal como trabalhada nesta unidade curricular, não oferece protocolos replicáveis nem “técnicas rápidas” de humanização. O que oferece é um treino de atenção. Um treino exigente, que passa por aceitar a própria vulnerabilidade, reconhecer limites, suspender julgamentos e lidar com o desconforto de não saber.
Mesmo breve, este contacto parece funcionar como um marcador formativo. Algo que não se fecha no final da semana, mas que pode ser reativado mais tarde: num internamento difícil, numa consulta tensa, numa notícia impossível de dar. Como escreveu uma estudante, “não saio daqui a saber o que dizer, mas saio a saber quando ficar”.
Como prolongamento natural desta primeira edição, vamos desenvolver uma investigação longitudinal com os estudantes de medicina que frequentaram a disciplina. Através de questionários aplicados em três momentos distintos — no final da unidade curricular, seis meses depois e um ano após a conclusão — pretende-se compreender o que permanece desta experiência ao longo do tempo. Não apenas o que foi recordado, mas o que se transformou em prática, atitude ou forma de estar na relação clínica. Este acompanhamento permitirá analisar de que modo um contacto breve, mas intensivo, com a linguagem artística do Doutor Palhaço pode deixar marcas duradouras na formação médica, contribuindo para uma reflexão sobre o lugar das artes na educação em saúde.
Num contexto em que a formação médica é cada vez mais pressionada por conteúdos técnicos e avaliações objetivas, esta experiência aponta para a importância de criar espaços onde o erro é permitido, o tempo abranda e a relação volta a ocupar o centro.
A Arte do Doutor Palhaço não substitui a ciência. Mas lembra, com rigor artístico, que sem encontro não há cuidado.