Começar o ano com propósito - Luiza Teixeira de Freitas - Operação Nariz Vermelho

Começar o ano com propósito – Luiza Teixeira de Freitas

Um novo ano não começa apenas no calendário. Começa na forma como escolhemos estar presentes. Começa no modo como olhamos para o caminho percorrido e, a partir daí, escolhemos como queremos avançar. Mais do que um exercício de planeamento, o início de um novo ano é um momento de intenção. Tempo para recentrar, alinhar e recordar o essencial, antes de definir metas, indicadores ou prioridades.

Num contexto marcado por mudanças rápidas, incerteza e exigências constantes, é tentador começarmos o ano focados apenas em objetivos, resultados e crescimento. No entanto, na Operação Nariz Vermelho acreditamos que antes de qualquer plano há um propósito, que é o que dá sentido às escolhas, que orienta as decisões difíceis e que nos permite manter coerência. É ele que nos ajuda a distinguir o que é urgente e o que precisa de tempo.

O que nos move na ONV é, antes de mais, a nossa missão. Uma missão profundamente humana, que nasce do compromisso com as crianças e com os contextos em que a fragilidade e a incerteza estão sempre presentes. Acreditamos que as visitas dos nossos Doutores Palhaços são essenciais e é essa convicção que sustenta e dá sentido à nossa presença.

Move-nos também a arte como forma de cuidado. A arte do Doutor Palhaço não é um adorno, nem um elemento acessório. É linguagem, é encontro que cria espaço para a alegria emergir mesmo nos contextos mais difíceis e exigentes. Através da nossa arte, abrimos possibilidades de relação e de expressão, e, acima de tudo, de alívio emocional, não apenas para as crianças e suas famílias, mas também para quem cuida, acompanha e trabalha diariamente nesses contextos.

Este compromisso exige responsabilidade. Intervir em contextos sensíveis implica rigor e consciência do impacto que cada gesto pode ter. Exige preparação, reflexão contínua e uma atenção permanente à qualidade da intervenção que fazemos. Não basta estar presente; é preciso saber como estar e com que intenção. É esta exigência que assumimos enquanto organização e que orienta a forma como crescemos, aprendemos e nos estabelecemos.

O nosso propósito não é abstrato. Vive-se no quotidiano. Não só nos nossos artistas que trabalham diariamente nos hospitais de norte a sul de Portugal, mas também no back-office, onde a nossa equipa, longe do olhar público, ativamente toma decisões todos os dias. Esse intuito está também na forma como trabalhamos em equipa, como escutamos diferentes perspectivas, como cuidamos das relações internas e como lidamos com a complexidade de atuar em lugares de fragilidade humana. Está também nas parcerias que construímos, na maneira como dialogamos com doadores e em como nos posicionamos na sociedade.

É no dia-a-dia que o propósito se torna prática. Quando escolhemos a coerência em vez da facilidade. Quando privilegiamos a qualidade em vez da pressa. Quando colocamos as pessoas no centro, mesmo quando isso implica mais tempo. É nesses momentos que a missão deixa de ser uma declaração e passa a ser uma experiência vivida.

A todos, que se movem conosco, o nosso Obrigada! Cada contributo, visível ou invisível, faz parte deste caminho. O sucesso da ONV reside precisamente nesta comunidade alargada, diversa e comprometida, que acredita que alegria faz parte do cuidado, e que o trabalho que fazemos é transformador. É esta corresponsabilidade que nos permite continuar, crescer com sentido e manter a integridade do que fazemos.

Ao iniciar este novo ano, não fazemos promessas vazias nem garantias absolutas. Fazemos, sim, um compromisso renovado com o propósito que nos trouxe até aqui. Um compromisso com a presença e com o cuidado. Confiança no caminho construído, nas pessoas que o percorrem e na relevância da missão que nos move.

À nossa equipa, que todos os dias trabalha nos bastidores e nos hospitais, desejo um ano de empenho, criatividade e alegria. Sempre a alegria.