Encontros que aproximam mundos, é essa a essência da intervenção dos Doutores Palhaços, e também foi o ponto de partida do nosso 1.º Encontro Científico. Durante os 23 anos de presença nos hospitais, a intervenção dos Doutores Palhaços foi dialogando, de forma natural, com várias áreas do conhecimento. A arte, a pediatria, a psicologia e a neurociência do desenvolvimento cruzam-se todos os dias nos quartos, corredores e salas de tratamento, de atividades e de espera onde trabalhamos.
O Encontro Científico surgiu da vontade de tornar este diálogo visível, de o aprofundar e de criar um espaço para diferentes olhares sobre a infância, sobre as interações e as relações no hospital, com a infância, com as famílias, com e entre os profissionais do hospital.
A importância da humanização em contexto hospitalar não é uma ideia abstrata. É uma necessidade concreta num ambiente onde o tempo é escasso, as exigências clínicas são intensas e as crianças vivem experiências que exigem compreender, sentir, esperar e confiar. Humanizar significa considerar a criança como pessoa inteira, com história, emoção e imaginação. É neste ponto que a arte tem um papel estruturante. Não substitui a medicina, mas amplia o campo do cuidado.
Estudos realizados pela Operação Nariz Vermelho demonstram de forma consistente o impacto da intervenção artística. Profissionais de saúde identificam redução da ansiedade das crianças, maior disponibilidade emocional dos pais e uma transformação perceptível no ambiente ou clima emocional dos serviços pediátricos. Vários participantes deste primeiro Encontro Científico, que teve lugar dia 20 de novembro no auditório do MAC/CCB, destacaram que este impacto da intervenção artística é visível tanto na criança hospitalizada que está prestes a fazer um exame, como na família que aguarda resultados ou no profissional que encontra um momento de alívio no meio da rotina hospitalar. A alegria, quando acontece no hospital, tem um efeito relacional que se propaga.
O orador Dr. Pedro Caldeira, um dos participantes no Encontro Científico, recordou que expressamos emoções de modo mais completo quando estamos com alguém. No hospital, isto torna-se evidente. Uma criança acompanhada na sua emoção negoceia melhor aquilo que está a viver. O pedopsiquiatra sublinhou ainda que brincar é fundamental para o desenvolvimento. Nas suas palavras, brincar é verdadeiramente o trabalho da infância. Ao devolver este território às crianças dentro do hospital, os Doutores Palhaços criam espaço para que elas possam continuar a pensar, sentir e organizar internamente a experiência da doença e da hospitalização.
O Encontro Científico trouxe também outras vozes que reforçaram a importância da escuta, da presença e do olhar atento: a nossa presidente, Luiza Teixeira de Freitas, a médica pediatra e antiga Ministra da Saúde, Ana Jorge, e ainda a atriz e apresentadora Joana Barrios, entre outros. Falaram da arte como forma de reorganização simbólica, da imaginação como ferramenta cognitiva e emocional e da necessidade de criar ambientes onde as crianças possam ser crianças, mesmo em momentos difíceis. A mesa-redonda, na qual participaram o nosso Diretor Artístico, Fernando Escrich, a enfermeira Paula Maia e o enfermeiro-maestro Luís Lopes Cardoso, mostrou que o cuidado não é apenas técnico, é também relação, afeto e disponibilidade.
Ao reunir profissionais de saúde, artistas, investigadores e parceiros, o Encontro Científico reforçou algo que nos acompanha desde o início: a arte e a saúde não pertencem a mundos separados. Co-operam, num plano perpendicular, com vários pontos de interseção, para tornar o contexto hospitalar mais humano, mais atento às necessidades da infância e mais consciente da importância do encontro para a experiência de cuidar e ser cuidado.